quinta-feira

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

Meu coração tardou

Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.

Fernando Pessoa

Fazes-me mal...

Fazes-me mal. Esmagas o que há de bom em mim, transformas tudo num rodopio de lágrimas e queixumes. Trocas-me as voltas, penso que sou aquilo que eu não sou. Fazes com que eu me torne uma pessoa amarga, fazes-me perder a cabeça; por tua causa, perco a paciência e as estribeiras. Faço coisas loucas, coisas que nunca fiz. Faço-me algo que não sou, para poder voltar a ser merecedor da tua atenção. Mas, sabes uma coisa? Se não mereço a minha consideração, também não mereço a tua atenção, o teu olhar. Vou fechar-me em mim por uns tempos. Durante esse tempo não vou estar para o Mundo, não vou estar para ninguém, nem para mim. Tenciono voltar uma pessoa melhor, mais sã. Espero, para meu e teu bem, que isso seja possível. Espero não chegar à conclusão que tudo não passou de uma farsa, de uma brincadeira de mau gosto. Às vezes o destino põe-nos contra a parede, testa-nos até ao limite. Eu fui ao fundo, agora voltei para cima.
Não te espero encontrar a ti, à tona, mas apenas paz, à minha espera.

Estou

Estou farta.
Farta de chorar. Tão farta que as lágrimas já nem sequer querem sair mais. Os meus olhos estão cansados de te procurar, sem nunca te encontrar em nada do que faço.
Estou cansada.
Cansada de correr com a memória todos os momentos que passamos juntos, e que cada vez mais se tornam vagos na minha cabeça. Torna-se dificil lembrar-me bem de tudo.
Estou triste.
Triste por não estar contigo, triste por nunca ter, realmente, estado contigo.
Estou ansiosa.
Ansiosa que me fales, ansiosa por voltar a ser como dantes.
Estou zangada.
Zangada comigo, por querer tanta coisa de ti, depois de tanto tempo, tanta distancia, tantos quilometros, tantas outras vidas que nos passaram pelas mãos.
Já não quero aguentar este emaranhado de sentimentos, dói-me a alma. E a cabeça. E o coração, e sinto-me sem saída.
Quero-te aqui, onde nunca te quis.
Quero que me faças esquecer esta dor, que eu te obriguei a inflingir-me.
Quero fugir para longe, para o pé de ti, para encontrar o meu porto de abrigo fora deste Porto chuvoso.
Mas agora sei que não posso ter-te comigo, porque tu já não me tens contigo. E já nem te sou fosca ou vaga, devo apenas ser um nome. E os nomes não importam, não fazem de nós o que nós somos, apenas fazem de nós legais.
Para que é que eu tenho um nome, se não te tenho a ti?
Por ti, deixava de ter nome. Passava a ser apenas aquela que está com o homem com quem ela quer estar.

(créditos bad girl)
Não aceites por pena aquilo que queres por amor...

A miséria do meu ser

A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista.

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

Fernando Pessoa